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A Inteligência Artificial chegou silenciosamente e, em pouco tempo, passou a ocupar espaços que antes pareciam exclusivamente humanos. Ela escreve, organiza, cria imagens, sugere ideias, monta roteiros, escolhe músicas e até conversa conosco, eu mesma , uso-a nos meus trabalhos.
Mas uma pergunta começa a me inquietar: até que ponto estamos usando a IA como ferramenta e a partir de quando começamos a depender dela?
Quando penso especialmente em nós, mulheres, essa discussão ganha uma camada ainda mais profunda. Carregamos uma bagagem histórica de rejeições, comparações e cobranças. Durante gerações, fomos ensinadas a buscar aprovação: do homem, da família, da sociedade e, agora, também das redes sociais.
Por isso, acredito que precisamos ter cuidado para não transformar a inteligência artificial em mais uma voz dizendo quem deveríamos ser (era só o que faltava né?!)
Ao mesmo tempo, seria injusto enxergar a IA apenas como uma ameaça. Eu consigo perceber inúmeras possibilidades positivas. Uma mulher pode conversar com uma ferramenta de IA para organizar suas ideias (faço isso com frequência), planejar uma viagem, melhorar sua comunicação, criar um currículo ou até descobrir novas possibilidades profissionais.
Ela também pode ser uma aliada na autoestima. Podemos pedir sugestões de combinações de roupas, descobrir novas formas de usar peças que já temos no armário, experimentar cortes de cabelo, acessórios ou estilos diferentes. E nessa hora torna-se até divertida!
Até na alimentação ela pode ajudar: elaborar receitas, organizar cardápios, sugerir preparações mais práticas, leves e auxiliar na organização de uma rotina de exercícios. Mas aqui existe um limite que considero fundamental.
IA não substitui nutricionista, médico, psicólogo, educador físico, dermatologista ou qualquer outro profissional capacitado. Um plano alimentar pode parecer perfeito na tela e, ainda assim, não considerar exames, medicamentos, histórico familiar, hormônios ou necessidades individuais.
O mesmo vale para a nossa imagem. A IA pode nos mostrar uma versão maravilhosa de nós mesmas, mas aquela imagem não necessariamente representa nosso corpo real. E se começarmos a acreditar que aquela versão artificial é o padrão que precisamos alcançar, podemos transformar uma ferramenta de autoestima em uma ferramenta de rejeição.
Especialistas já alertam justamente para esse risco: imagens produzidas por IA podem reforçar padrões irreais de beleza e aumentar a sensação de inadequação.
E existe ainda uma questão que considero muito séria: a possibilidade de a tecnologia reproduzir os mesmos preconceitos que nós, seres humanos, ainda carregamos. A ONU Mulheres alerta que sistemas de IA podem reproduzir vieses de gênero presentes nos dados utilizados para treiná-los.
Um exemplo recente que me chamou atenção foi o da atriz Paolla Oliveira. Ela precisou denunciar publicamente o uso de inteligência artificial para criar fotos e vídeos falsos com seu rosto e seu corpo. A atriz transformou uma experiência de violência digital em um alerta para outras mulheres.
E isso nos leva a uma reflexão ainda maior: se durante séculos a mulher precisou lutar para ser respeitada por sua aparência, sua voz e suas escolhas, não podemos permitir que uma tecnologia passe a definir novamente o nosso valor.
Não quero uma mulher competindo com a IA. Quero uma mulher usando a IA a seu favor.
Por isso precisamos nos “policiar”.
Quero que a tecnologia nos ajude a ganhar tempo, conhecimento, criatividade e autonomia… mas sem tirar de nós a capacidade de pensar, escolher, sentir e questionar.
Porque talvez o maior perigo não seja a IA substituir a mulher.
Talvez seja a mulher começar a acreditar que precisa da IA para ser suficiente, ou ainda a própria mulher só se ver como IA.
E, para mim, essa é a diferença entre usar a tecnologia e entregar a ela o poder de decidir quem somos.
Eu ainda sou do time que acredita em boa Make, bons cuidados, bons fotógrafos e até um pouco mais retrógrada talvez, ainda aposto muito nas coisas e pessoas físicas, reais.
A opinião expressa neste artigo é de inteira responsabilidade da autora e não representa, necessariamente, a opinião da Rádio Charrua.
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◾️Fonte: Danni do Amaral | DJ, empresária, palestrante e idealizadora do Bolsa de Mulher Experience @dannidoamaral | @bolsademulherexperience
⌨️ Edição de título: Dario Carvalho | Rádio Charrua
📸 Imagem: Danni do Amaral | Arquivo Pessoal