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Por trás da tela, uma aposta pode parecer apenas algo divertido ou um passatempo. Mas, para algumas pessoas, esses momentos que parecem inocentes, podem começar a se tornar um grande problema na vida de quem aposta.
As bets chegaram com força na vida dos brasileiros. Estão no celular, nas redes sociais, nas transmissões esportivas, na roda de amigos, na tv e às vezes até no ambiente de trabalho. Palpitar em um resultado, acompanhar uma partida e buscar a sensação de ter previsto e acertado um resultado pode parecer, inicialmente, apenas uma forma de entretenimento.
O problema começa quando a aposta deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.
É nesse ponto que precisamos falar sobre saúde mental.
O uso compulsivo dos sites de jogos e apostas, conhecido como ludopatia, não pode ser reduzido a uma questão de azar ou irresponsabilidade ao administrar dinheiro. Existe uma diferença importante entre apostar ocasionalmente por diversão e apostar compulsivamente, onde não há controle do comportamento, ignorando o fato de que já ocorreram consequências ruins.
O sinal mais preocupante aparece justamente quando a pessoa percebe que não tem mais controle sobre aquilo, que já perdeu muito, mas mesmo assim, continua apostando pois acredita que conseguirá recuperar aquilo que perdeu.
A família, esposa, amigos tendem a reparar esse comportamento, geralmente a pessoa promete que vai parar, mas volta a apostar. Geralmente com a justificativa de que vai recuperar o valor perdido. Mas como recuperar o que foi perdido justamente no lugar que nos fez perder?
Por trás desse comportamento podem surgir ansiedade, irritabilidade, culpa, insônia, dificuldade de realizar outras atividades longe das telas e sofrimento emocional.
O endividamento também pode criar um ciclo complicado: A aposta, se torna um looping de perdas e ganhos, quanto maior a perda, maior a urgência de recuperar o dinheiro e, consequentemente, maior necessidade de apostar.
Talvez esse seja um dos grandes paradoxos da compulsão já que o que parece uma tentativa de resolver o problema passa, então, a alimentar o vício.
É como andar em círculos acreditando que em algum momento, a paisagem vai mudar.
E não é apenas o dinheiro que pode ser perdido nesse percurso, também podem ocorrer problemas com o sono, falta de confiança, solidão por passar menos tempo com o parceiro, família e amigos, perda de concentração pelo pensamento compulsivo, e diminuição do prazer em outras atividades já que nenhuma delas produz a mesma sensação de recompensa. Pouco a pouco, a pessoa vai perdendo o controle sobre a própria vida.
Por isso, dizer que simplesmente “é só parar”, não se aplica nesse caso pois o comportamento compulsivo envolve mecanismos psicológicos que podem dificultar a interrupção. Muitas vezes, a pessoa sabe que está fazendo mal a si mesma e, ainda assim, não consegue parar.
É nesse momento que o sofrimento pode se tornar silencioso.
A pessoa começa a esconder quanto apostou. Apaga mensagens. Omite perdas. Evita conversar sobre dinheiro. Mente sobre onde esteve ou quanto gastou. Pode pedir dinheiro emprestado ou utilizar recursos que estavam destinados a outras necessidades.
E, quanto maior a vergonha, maior pode ser o esforço para esconder o problema.
É importante lembrar: a vergonha pode manter alguém em silêncio, mas o silêncio não resolve a compulsão.
Por isso, precisamos aprender a olhar para esse problema sem julgamento. Não significa romantizar as apostas ou retirar da pessoa a responsabilidade pelas consequências de suas escolhas, e sim, entender que, por trás desse comportamento, pode existir alguém precisando de ajuda e em sofrimento psicológico.
Por isso, não é necessário deixar chegar ao limite para reconhecer que algo está errado.
Talvez, a solução não seja apenas tentar recuperar o dinheiro perdido, a solução pode ser aceitar que nem toda perda precisa ser recuperada. Algumas precisam ser interrompidas.
E talvez recuperar não seja ganhar de volta aquilo que foi perdido.
Talvez seja parar de perder a si mesmo tentando recuperar o que já foi embora.
Quando a aposta deixa de ser uma escolha e passa a comandar o comportamento, já não estamos falando apenas de um jogo: Estamos falando de saúde mental.
Sou Felipe Bortolotto Psicólogo clínico e vejo você novamente na semana que vem.
A opinião expressa neste artigo é de inteira responsabilidade da autora e não representa, necessariamente, a opinião da Rádio Charrua.
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◾️Texto e foto: Felipe Bortolotto | Psicólogo | Pós-graduado em Neuropsicologia | Capacitação em avaliação psicológica | Capacitação em nivelamento de escrita
⌨️ Edição de título: Dario Carvalho | Rádio Charrua