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A violência termina, mas quem reconstrói a vítima?
Bullying, fobia social e as marcas invisíveis de uma violência que pode durar muito além da agressão.
Existe uma crueldade particular em fazer alguém sentir vergonha de existir. A agressão pode terminar, mas suas consequências continuam presentes na maneira como a vítima se enxerga, se relaciona e enfrenta o mundo.
Nesta última segunda-feira um vídeo que circulou na internet foi o vídeo do youtuber Felca comentando sobre seu passado e tocando em temas extremamente sensíveis a ele e a sociedade, como bullying, fobia social, empatia entre outros.
No vídeo Felca relata experiências de bullying, agressões e humilhações vividas durante a adolescência. Sua história nos leva a uma reflexão importante: o que acontece quando alguém passa a acreditar que o problema não está na violência que sofreu, mas em quem é?
Quando a humilhação se repete, a pessoa pode deixar de pensar “estão me tratando mal” e começar a acreditar “há algo de errado comigo”. A rejeição passa a influenciar sua autoestima, e o medo de ser humilhada novamente pode transformar situações cotidianas em fontes de ansiedade.
É nesse contexto que podemos compreender a relação entre bullying e fobia social. Mais do que timidez, a ansiedade social envolve um medo intenso de ser julgado, constrangido ou rejeitado. A pessoa pode desejar fazer amizades, participar de conversas e viver novas experiências, mas acaba se afastando por receio de reviver o sofrimento. O bullying não é a única causa desse transtorno, mas pode contribuir para seu desenvolvimento.
O problema é que evitar situações sociais traz alívio imediato, mas também pode reforçar a ideia de que estar perto das pessoas é perigoso. Aos poucos, o medo começa a limitar escolhas e oportunidades. Por isso, não basta dizer a alguém que precisa ter mais confiança ou deixar de sentir vergonha. Em muitos casos, é necessário apoio psicológico para compreender esses medos e recuperar, gradualmente, a liberdade de viver.
O relato de Felca também nos lembra que nem todo sofrimento é visível. Uma pessoa pode trabalhar, estudar, participar de eventos e parecer segura, enquanto enfrenta intensa ansiedade internamente. Conseguir realizar uma atividade não significa, necessariamente, que ela não esteja sofrendo.
Existe ainda uma questão social importante: costumamos valorizar tanto a superação que, às vezes, esquecemos de questionar a violência que a tornou necessária. Dizemos que alguém ficou mais forte depois de sofrer, como se a dor fosse uma etapa indispensável do amadurecimento.
Mas é preciso compreender que reconhecer a força de quem sofreu não significa justificar aquilo que essa pessoa sofreu. Ninguém precisa agradecer pela violência, transformar a própria dor em uma grande conquista ou provar resistência para merecer respeito.
Uma criança não deveria precisar aprender a suportar humilhações. Deveria encontrar adultos dispostos a protegê-la. Famílias e escolas têm a responsabilidade de ouvir, investigar e interromper o bullying, em vez de tratá-lo como brincadeira ou uma fase que a vítima precisa enfrentar sozinha.
Felca também relata ter considerado o suicídio durante a adolescência, o que reforça a importância de levar o sofrimento psicológico a sério. Quando alguém chega a esse ponto, não basta recomendar força ou dizer que tudo vai passar. É necessário acolher, oferecer apoio e buscar ajuda profissional.
Sua trajetória mostra que é possível construir novas experiências sem precisar apagar o passado. Superar não significa nunca mais sentir medo, mas deixar de permitir que ele determine todas as escolhas. Cada pessoa tem seu próprio ritmo, e a recuperação não deve ser uma competição de resistência.
Talvez a principal reflexão que sua história nos deixa seja esta: é fácil admirar alguém que conseguiu reconstruir a própria vida. Mais difícil é olhar para trás e perguntar por que essa pessoa precisou sofrer tanto, especialmente quando ainda era uma criança que deveria estar sendo protegida.
A violência termina para quem a pratica quando a agressão acaba. Para quem a sofre, ela pode continuar por anos. E uma sociedade que ensina suas crianças a serem fortes diante da humilhação, mas não se mobiliza para impedir que sejam humilhadas, precisa rever o que realmente entende por força.
Me chamo Felipe Bortolotto Psicólogo clínico e vejo você semana que vem na nossa próxima conversa.
A opinião expressa neste artigo é de inteira responsabilidade de quem escreve e não representa, necessariamente, a opinião da Rádio Charrua.
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◾️Texto e foto: Felipe Bortolotto | Psicólogo | Pós-graduado em Neuropsicologia | Capacitação em avaliação psicológica | Capacitação em nivelamento de escrita
⌨️ Edição de título: Dario Carvalho | Rádio Charrua